Em outubro de 2002

Grande foi o nosso espanto! Quando o médico começou a informar qual seria o procedimento legal para a realização do aborto, caso desejássemos, eu o interrompi e fui perguntando: "Doutor, eu corro risco de vida?". E o médico respondeu: "Pelo fato de o bebê ter esta anomalia, não. Algumas situações podem ocorrer, como, por exemplo, o aumento do líquido amniótico, mas isto pode ser contornado com os recursos dos quais dispomos hoje." A minha resposta veio pronta: "Então, Doutor, este bebê vai nascer!".
E assim se seguiu. A gestação transcorreu bem, sem maiores percalços. Eu seguia a rotina diária de qualquer mulher que tem casa, marido, filho e trabalho externo, e, sempre que me perguntavam como ia a gravidez, eu respondia que estava indo bem (sim, dentro de todo o contexto, a gestação estava indo bem), se estranhos me abordavam, questionando se seria menino ou menina, quantos meses, etc... eu sempre respondia com um sorriso, que era um menino, que estava com "x" semanas. Apesar de estar vivendo tempos difíceis, eu me esforçava em tornar a situação um pouco mais leve e evitava causar preocupação desnecessária nas pessoas ao meu redor, especialmente, no meu marido.
Após o diagnóstico, procuramos informações junto a outros médicos; pesquisamos muito na internet sobre o tema; contatamos outros pais que também passaram por
esta situação, em busca de informações sobre a anencefalia e sobre uma possível cura. Descobrimos que a Medicina, no estágio evolutivo em que se encontra, nada pode fazer para reverter este diagnóstico. Descobrimos que a mulher em idade fértil deve tomar 5 mg. diárias de Ácido Fólico, o que reduz em mais da metade a chance de se gerar um bebê com má-formação do tubo neural (a anencefalia é apenas uma de outras más formações possíveis, como, por exemplo, a espinha bífida). Descobrimos que muitas mulheres que passam por igual situação não têm acesso a informações corretas e acabam por realizar o aborto. Eu mesma fiquei espantada por nunca ter visto uma campanha oficial sequer, voltada para a orientação das mulheres quanto à importância preventiva do ácido fólico em uma futura gestação!Felipe nasceu de parto normal, no ano de 2003 e viveu vinte minutos. A experiência de termos tido este filho muito amado enriqueceu nossas vidas, fortaleceu nosso senso de respeito ao próximo e da importância da família, e, hoje, somos confortados pelo sentimento de termos feito o que era correto. Quanto vale a vida de um filho? Tudo aquilo que um pai e uma mãe puderem fazer para preservá-la.
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