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Thursday, March 21, 2013

A essência da liderança: o caráter – parte 1

Reproduziremos, em  dois capítulos, um pouco do capítulo referido acima, do excelente livro Virtudes e Liderança, de Alexandre Harvard, da editora Quadrante, essencial a todos os líderes de todas as espécies e categorias. O livro é muito objetivo, fino, de fácil leitura, uma ótima opção para ler e presentear. Essa iniciativa nossa é uma homenagem à mais completa líder da mais importante empresa - a família - no dia a dia (não em um só destacado) uma servidora de primeira classe: a dona de casa.
 
A liderança só pode ser uma questão de caráter. E o caráter não nos é imposto pela natureza: podemos modificá-lo, modelá-lo, fortalecê-lo e, ao proceder assim, adquirimos a coerência, a constância e o equilíbrio(...).

Fortalecemos o nosso caráter pela prática de hábitos morais, denominados virtudes ética ou virtudes humanas. Quando agimos assim, o caráter produz uma marca indelével n nosso temperamento, o qual deixa de comentar a nossa personalidade.

As virtudes são qualidades da inteligência, da vontade e do coração. Conferem força ao caráter e estabilidade à personalidade; e adquirem-se mediante a repetição de atos. Platão definiu como principais quatro virtudes humanas: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança ou autodomínio. São as chamadas virtudes cardeais (do latim cardo ou "gonzo"), porque nelas se baseiam as demais virtudes. Cada uma das virtudes não cardeais está ligada a uma das cardeais e dela depende.

É necessário mencionar outras duas virtudes: a magnanimidade e a humildade. São duas virtudes fundamentais, embora a tradição não as conte entre as cardeais. Para o gregos, a humildade dependia da virtude cardeal do autodomínio, e a magnanimidade, da virtude cardeal da fortaleza.

A virtude é uma foça dinâmica, como sugere a palavra latina da qual procede, virtus, que significa "força" ou "poder". Cada virtude, quando praticada habitualmente, melhora progressivamente a nossa capacidade de agir.

As seis virtudes que acabamos de mencionar permitem-nos:

- tomar boas decisões (prudência);
- manter o rumo e resistir a qualquer tipo de pressões (fortaleza);
- submeter as paixões ao espírito e dirigi-las à realização da nossa missão (autodomínio);
- dar a cada um o que é seu e entrar no coração dos outros (justiça);
- corresponder à nossa vocação, realizar a nossa missão, estabelecer objetivos pessoais elevados para nós mesmos e para os outros (magnanimidade);
- ultrapassar o nosso ego e servir os outros de forma habitual (humildade).

As virtudes não são um substituto da competência profissional; são, mais propriamente, uma parte substancial dela.[...] A competência profissional é muito mais do que a simples posse de uns conhecimentos técnicos ou acadêmicos: envolve a capacidade de utilizar bem esses conhecimentos par afins proveitosos.

Monday, March 4, 2013

Os gastos e as estações do ano

Hoje estive pensando nos gastos que variam de acordo com as estações do ano.  Aqui no Brasil isso é bem visível, visto que as estações de verão e o “resto” são bem marcantes. Digo assim  porque na maior parte do país, ou temos um calor de rachar, ou umas chuvas sem proporções que tornam os dias mais amenos. É claro que quem mora no sul do país tem  a visita do inverno com suas geadas e um frio um pouco mais forte.

O carioca, quando chove um pouco e sopra um ventinho mais fresco, já tira os agasalhos do armário, fingindo que está frio de verdade. O pior é quando as mulheres usam botas com regatas, numa combinação esquisita que não tem nada a ver!

Bem, voltando aos gastos, podemos verificar um aumento exponencial na conta da luz, no consumo de água e dos aparelhos de ar-condicionado e nos ventiladores. É a época em que as pessoas compram mais geladeiras, freezer  e climatizadores. Precisamos colocar limite aos filhos, controlando o tempo que os aparelhos ficam ligados, e deixar que sintam um pouco de calor, para aprendam a passar alguns desconfortos, e assim, no futuro, saibam fazer melhor uso dos seus próprios salários e dos aparelhos domésticos que poderão comprar.

Quando pensamos que vamos economizar com o horário de verão, ganhando mais horas de sol, sem precisar ligar tantas lâmpadas, acabamos consumindo o dobro em refrigeração. Mas o verão também é uma boa época para se economizar nas fraldas descartáveis dos bebês. Podemos aproveitá-lo para desfraldar as criancinhas, deixando-os com o bumbum mais fresquinho, e livres daquele monte de algodão e plásticos. É a ocasião de consumirmos mais sucos e sorvetes.

Seria bom escrevermos uma lista das coisas que podemos economizar no verão em cada casa. E tomar o cuidado de verificar se a estamos seguindo. Há vários exemplos: aquele descuido com as lâmpadas que deixamos acesas, pelo vício de entrar num ambiente e logo ir acendendo tudo, o ar que ficou ligado, porque voltamos logo, a geladeira aberta na nossa frente, esperando que nos decidamos o que vamos beber.

E fazer outra lista para as economias do inverno. Nesta época gastamos mais com a eletricidade, com os longos banhos da garotada no chuveiro elétrico, ou mais gás, com os aquecedores. Os gastos com a alimentação também podem sofrer um grande acréscimo, porque o tempo propicia a alimentos mais elaborados, como um chocolate quente, um fondue, sopas variadas, massas gratinadas, feijoada, churrascos, e colocamos a imaginação para funcionar, usando muito mais variedades de alimentos.

Deixo a dica para fazermos listas para economizar de acordo com as estações. Notarão que numa casa sempre há desperdícios, por conta da garotada que é mais descuidada com a economia doméstica.

Saturday, February 23, 2013

Credo – parte 2

Já escrevemos sobre a primeira parte do Credo, a do Pai criador. Agora vamos ressaltar a segunda pessoa da Ssma Trindade, o filho. Nada poderíamos escrever de melhor do que transmite uma carta do Prelado do Opus Deis aos fieis da Prelazia. Vamos transcrever alguns trechos, para que apreciem e meditem, neste Ano da Fé.

"O Credo da Missa expõe com suma simplicidade o mistério da Encarnação redentora, ao confessar que o Filho de Deus, por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos céus e encarnou-se pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Nessas poucas palavras, que pronunciamos ou cantamos acompanhadas de uma profunda inclinação de cabeça, narra-se o acontecimento central da história, que nos abriu as portas do Céu. Nesse texto, como numa filigrana, escuta-se o eco dos três relatos da Encarnação que os evangelhos nos transmitem. São Mateus, ao falar da anunciação do mistério a São José, põe na boca do Anjo as mesmas palavras com que se refere ao Filho da Virgem Maria: por-lhe-ás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados . A encarnação e o nascimento de Jesus manifestam a infinita bondade divina: uma vez que não podíamos voltar para Deus pelas nossas próprias forças, por causa do pecado – o original e os pessoais –, Ele veio ao nosso encontro: Tanto amou Deus o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que crê nEle não pereça, mas tenha a vida eterna. Recordo-vos aquela consideração com que São Josémaria nos instava a viver uma fé atual, profunda: Se não nos enchemos de pasmo ante os mistérios de Deus, acabamos por perder a fé. Cuidamos com delicadeza do trato com Jesus? Agradecemos essa onipotência do Senhor que reclama a nossa submissão, como prova de amor?
Ó Mãe, Mãe! Com essa tua palavra – “fiat” – nos tornaste irmãos de Deus e herdeiros da sua glória. – Bendita sejas!].

Todas estas razões, e muitas mais que caberia enumerar, podem resumir-se numa só: “O Verbo encarnou-se para nos fazer «participantes da natureza divina» (2 Pe 1, 4): “Porque tal é a razão pela qual o Verbo se fez homem, e o Filho de Deus, Filho do homem: para que o homem, ao entrar em comunhão com o Verbo e receber assim a filiação divina, se convertesse em filho de Deus»”].

Jesus Cristo é realmente a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: o Filho do eterno Pai que assumiu verdadeiramente a nossa natureza humana, sem deixar de ser Deus. Jesus não é um ser em parte divino e em parte humano, como uma mistura impossível da divindade e da humanidade. É perfectus Deus, perfectus homo, como proclamamos noQuicumque ou Símbolo Atanasiano

Consideremo-lo uma vez mais: “A verdadeira fé consiste em que creiamos e confessemos que Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, é Deus e homem. É Deus, gerado da mesma substância do Pai antes do tempo; e homem, gerado da substância da sua Santíssima Mãe no tempo: que subsiste com alma racional e carne humana. É igual ao Pai segundo a divindade; menor que o Pai segundo a humanidade. E, embora seja Deus e homem, não são dois Cristos, mas um só Cristo. Um só, não pela conversão da divindade em corpo, mas pela assunção da humanidade em Deus. Um absolutamente, não por confusão de substância, mas na unidade da pessoa"].

Precisamos ter presentes e vivas em nossa alma esses dois pontos que acabamos de citar: não basta acreditar, é preciso confessar Jesus Cristo por palavras e obras de amor, pelo apostolado constante e paciente, pela unidade de vida; entendamos com clareza que a natureza divina não se deteriorou ao assumir a nossa humanidade, e sim esta mesma humanidade se elevou a uma nova dignidade, a de filhos de Deus.

Diante de tão grande mistério, só podemos contemplar como o fez S. Josémaria: Necessitamos das disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens.

Portanto, para termos convicção do mistério e dele darmos testemunho, precisamos humilhar nosso entendimento meramente humano e transcender até o sobrenatural, pelo conhecimento da doutrina, que deve nos despertar uma sede insaciável, e pela oração amorosa com acompanhamento fiel dos sacramentos. O Espírito Santo infundirá em nós, assim, os seus dons, conjugando-os a uma devoção de criança humilde e desprotegida, sempre entregue ao Pai, por meio do Filho."
                                                                               Maria Teresa Serman

Saturday, February 16, 2013

Na primeira pessoa do plural - parte 1

Dois males estão adoecendo as consciências e os relacionamentos: o relativismo e o individualismo. O primeiro é grave, traiçoeiro, e travestido de tolerância. Tudo é bom, desde que feito com boa intenção; tudo pode ser aceito; nada pode ser criticado, a não ser aqueles que não adotam essa gelatina moral, que se amolda ao recipiente que a contém. Estes são odiados como "conservadores", "fundamentalistas" e intolerantes. Nada mais distante da verdade que essa visão deturpada e injusta sobre quem defende valores e critérios. 

Claro que, se a intenção propulsora do ato é agir corretamente, isso é importante. Só Deus conhece a nossa alma em profundidade, os outros só desconfiam de sua essência pelo que fazemos. Por tal fato, duas coisas se afirmam: que somos o que somos, não o que acham de nós, e o seguinte texto da Imitação de Cristo é perfeito para entender essa certeza reconfortante:

"Não és mais santo porque te louvam nem mais pecador porque te injuriam. És aquilo que és; e tudo o que disserem de ti não te fará maior do que és aos olhos de Deus. Se atenderes ao que és interiormente, não te preocuparás com o que os homens dirão de ti. «O homem vê a cara, mas Deus o coração» (1Sm 16,7)."

Contudo, o testemunho que damos  com nossa vida cotidiana é fundamental. "Não basta ser bom, é preciso parecê-lo." A bondade que germina no coração deve brotar nas ações comuns, não excepcionais. Do mesmo modo, deve-se reconhecer o erro, e aqueles que tem dever de estado receberam a missão de alertar e corrigir, pela correção fraterna, sempre com entranhado amor e atitude carinhosa e benigna, pois "detesta-se o pecado, mas ama-se o pecador", que somos todos nós.
O segundo "mal do século" é o egocentrismo, que se manifesta pelo afã de obter tudo que o egoísta acha que merece, não obstante o sofrimento que possa causar, a um ou a muitos. A trilha dolorosa que o individualismo abre é larga, extensa e profunda. Afeta as relações humanas mais viscerais, como a união familiar; a fidelidade matrimonial; a paz nos ambientes de trabalho;, o amor confiável entre as pessoas; e até as atividades de lazer comunitário e particular. Acabamos de ter um exemplo disso no comportamento destruidor e irresponsável de foliões que, com seu frenesi carnavalesco desrespeitoso, destruíram propriedade alheia, inundaram a cidade de lixo, e deixaram um rastro nauseabundo de que nem animais são capazes.

O incontestável princípio "o direito de um acaba quando começa o do outro" foi pras cucuias! É cada um por si; quem mandou ser otário; perdeu, mané - e a glória maior dessas aberrações está bem alto, nos poderes constituídos da nação, com eleições espúrias, conchavos viciados pelos mesmos que escaparam da punição devida, mensalões, trimestralões e semestralões! E gente vil com pose de defensores dos pobres e desvalidos, haja óleo de peroba!

Continuamos no próximo texto. Este é um intervalo para limparmos a sujeira que nos jogam em cima.

                                                         Maria Teresa Serman

Sunday, February 10, 2013

Virtudes da Convivência -

SÃO MUITAS AS VIRTUDES que facilitam e tornam possível a convivência.

A benignidade e a indulgência levam-nos a julgar as pessoas e as suas atuações de forma favorável, sem nos determos excessivamente nos seus defeitos e erros.

A gratidão é essa evocação afetuosa de um benefício recebido, com o desejo de retribuí-lo de alguma forma, quanto mais não seja com um obrigado ou coisa parecida. Custa muito pouco sermos agradecidos, e o bem que fazemos é enorme. Se estivermos atentos aos que estão à nossa volta, notaremos como é grande o número de pessoas que nos prestam constantes favores.

A cordialidade e a amizade facilitam muito a convivência diária. Como seria formidável que pudéssemos chamar amigos àqueles com quem trabalhamos ou estudamos, àqueles com quem convivemos ou com quem nos relacionamos! Amigos, e não apenas colegas ou companheiros. Isso seria sinal de que vamos desenvolvendo muitas virtudes humanas que fomentam e tornam possível a abertura aos outros: o ânimo desinteressado, a compreensão, o espírito de colaboração, o otimismo, a lealdade. Amizade particularmente profunda é a que deve existir no seio da própria família: entre irmãos, com os filhos, com os pais.

No convívio diário, a alegria, manifestada num sorriso oportuno ou num pequeno gesto amável, abre as portas de muitas almas que estavam a ponto de fechar-se ao diálogo ou à compreensão. A alegria anima e ajuda a superar as inúmeras contrariedades que a vida nos traz. Uma pessoa que se deixe dominar habitualmente pela tristeza e pelo pessimismo, que não lute por sair desse estado rapidamente, será sempre um lastro, um pequeno câncer para os que convivem com ela.

É virtude da convivência o respeito mútuo, que nos leva a olhar os outros como imagens irrepetíveis de Deus. No relacionamento pessoal com o Senhor, o cristão aprende a “venerar [...] a imagem de Deus que há em cada homem”, mesmo naqueles que por alguma razão nos parecem pouco amáveis, antipáticos ou insossos. O respeito é condição para contribuir para a melhora dos outros, porque, quando se esmagam os outros, o conselho, a correção ou a advertência tornam-se ineficazes.

O exemplo de Cristo inclina-nos a viver amavelmente abertos aos outros; a compreendê-los, a olhá-los com uma simpatia prévia e sempre crescente, que nos leva a aceitar com otimismo o entrançado de virtudes e defeitos que existe na vida de qualquer homem. É um olhar que chega às profundezas do coração e sabe encontrar a parte de bondade que há em todos.

Muito próxima da compreensão está a capacidade de desculpar prontamente. Viveríamos mal a nossa vida cristã se ao menor choque se esfriasse a nossa caridade e nos sentíssemos distantes das pessoas da família ou daqueles com quem trabalhamos.
 Por Maria Teresa Serman

Sunday, February 3, 2013

"Amélia não tinha a menor vaidade, Amélia etc, etc.'


Ai que Saudades da Amélia
Compositor: Ataulfo Alves / Mário Lago
Nunca vi fazer tanta exigência
Nem fazer o que você me faz
Você não sabe o que é consciência
Não vê que eu sou um pobre rapaz

Você só pensa em luxo e riqueza
Tudo o que você vê, você quer
Ai meu Deus que saudade da Amélia
Aquilo sim que era mulher

As vezes passava fome ao meu lado
E achava bonito não ter o que comer
E quando me via contrariado dizia
Meu filho o que se há de fazer

Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia que era a mulher de verdade


Vou mexer em casa de marimbondo, discutindo a verossimilhança de uma das heroínas do cancioneiro popular brasileiro: a Amélia. Símbolo de mulher abnegada, solidária, companheira, precursora da dieta radical e da baranguice. Vou explicar meu polêmico ponto de vista, relembrando a letra:
"Você só pensa em luxo e riqueza, tudo que você vê você quer.
Ai, meu Deus, que saudades da Amélia (1ª observação: deve estar morta já, foi-se),
Aquilo (não aquela, virou coisa, utensílio) sim é que era mulher!
De dia passava fome ao meu lado ( porque de noite ela passava fome sozinho, ele ia jantar fora!)
E achava bonito não ter o que comer ( claro, assim emagrecia!).
E quando me via contrariado ( louco pra pular fora), dizia "Meu filho, (aí acabou o encanto), o que se há de fazer?
Amélia não tinha a menor vaidade ( não se arrumava; não se maquiava; não fazia escova, progressiva ou regressiva; não se depilava; enfim, era um dragão!), Amélia é que era mulher de verdade".

Mulher de verdade. Simples ou depressiva? Com espírito de pobreza ou preguiçosa pra se cuidar?
Não comia, morreu cedo, deixando o viúvo procurando alguma mulher que fosse de mentira.
Era a própria mãe para o marido; por isso ele saía de noite e a deixava em casa. Deve ter ficado tuberculosa de tanta compreensão.
Sua sucessora, que pensava em luxo e riqueza, fez o indolente trabalhar e ganhar dinheiro, para aproveitar com ela, e não "apesar" dela.
Bom, deixando a brincadeira de lado (parte brincadeira, parte análise séria), penso que devemos ser companheiras, amáveis, solícitas, sem perder o lado sedutor, alegre, bem-humorado, não importa quantos filhos, anos de casados, montante da conta no banco, decepções mútuas - são inevitáveis, e podem ser muito bem aproveitadas - dividimos, ou somamos, melhor dizendo. Mas, colegas, vamos deixar a Amélia só na música, porque não dá mais não. É preciso autoestima e cuidado pessoal, sem pensar só em "luxo e riqueza".
Por Maria Teresa Serman

Tuesday, January 22, 2013

O "Sim!" nosso de cada dia

Por Maria Teresa Serman
Acabamos de comemorar o nascimento de Jesus, o Filho Unigênito de Deus, como confessamos no Credo; o Salvador, o Messias tão esperado pelo povo eleito, a partir daí toda a humanidade. E essa alegria que os anjos comunicaram aos pastores e aos homens de boa vontade; aos Magos que de longe vieram para prestar homenagem ao recém-nascido rei; àqueles de nós que O recebemos em nossos corações, mais do que no presépio, que tem lugar de honra em nossas casas nesse tempo jubiloso; enfim, essa incomparável graça que a criação esperava ansiosamente desde a queda dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, só foi possível por um "Sim!", "Fiat!", "Faça-se em mim segundo a Sua palavra", que uma jovem pura e cheia de graça proferiu ao arcanjo que lhe manifestou a intenção divina, não uma ordem do Todo-Poderoso.

E para que se faça a redenção que o Menino, depois de trinta anos de trabalho cotidiano e oculto, em uma aldeia sem importância na Galileia, e de três anos de ensinamento e milagres pelos caminhos que percorreu, consumou na cruz, é imprescindível que continuemos dizendo o "Sim!" da Virgem Santíssima, essa entrega que ela também compartilhou ao pés da mesma cruz a que seu filho estava pregado. De pé, com uma coragem nunca vista em um coração materno transpassado pela dor.

Apesar do drama da crucificação, o sim de Maria, e o nosso de cada dia, é simples, despercebido, em seu montante total. É o sim de cada dia indo à fonte pegar água para cozinhar e manter limpa a casa onde viviam seu filho e seu esposo; é o sim de lavar, na mesma fonte, as roupas; de cozer o pão e preparar a comida que alimentaria os três; de tecer as túnicas e cerzir as roupas; de sorrir aos seus amores, assim como às outras pessoas por perto, com carinho e benignidade, apesar do dia cansativo e quente que teria tido.

Seu amor - nunca mera conformidade - à vontade do Pai transcendia o seu especial círculo familiar. Era mais amplo, antecipava-se às necessidades, como bem demonstrou nas bodas de Canã, quando percebeu que o vinho havia acabado e, a pedido seu, Jesus fez seu primeiro milagre. Desse modo, também podemos apurar nossa sensibilidade, ficando atentos ao que os outros, próximos ou não, precisam, no plano material e principalmente no espiritual. As almas têm sede do vinho especial que só Jesus lhes pode dar, da água que Ele prometeu à Samaritana. Esse vinho, essa água, é através de nós que se derramará. Não por nossas qualidades, mas porque o Senhor assim o quer, pela nossa vocação, recebida no batismo.

Se nos recusamos, seremos profundamente infelizes, e comprometeremos nossa salvação e a daqueles que Ele nos destinou como rebanho. Também nós somos pastores, bons pastores, que precisam carregar muitas ovelhas nos ombros, sentindo o seu peso, conduzindo-as, mesmo que se percam e fujam para longe. E isso frequentemente acontece, por ironia, com os que estão mais perto de nós, por afeto ou consanguinidade. Esses nos custam muito, rasgam nossa carne e exaurem nossas forças. Mas, não podemos desistir, porque são nossa responsabilidade, e, sem eles, não entraremos no paraíso.

Monday, December 31, 2012

Projetos para quê?

Por Maria Teresa Serman
Toda vez é o mesmo papo (comprovadamente furado): projetos feitos para o novo ano, que são padrões, tais como emagrecer; fazer exercício físico; comer saudavelmente aquela catrefada de coisas com ômega 1,2,3,4,5,6 ao infinito, e radicais livres que nos aprisionam; começar uma atividade prazerosa, ou terminar de ler a pilha de livros empoeirados na cabeceira, que olham condenatoriamente para quem os vem rejeitando; dar mais atenção à família (esse então é campeão!); trabalhar menos e ter mais lazer; enfim, aquela lista que ninguém aguenta mais ouvir ou fazer, por isso não fazemos mesmo!

Que tal começar o ano com pouquíssimas e acessíveis metas, encabeçadas por uma fundamental, que conduzirá todas as outras? Abandonar-se nas mãos amorosas do Pai e deixar que a Divina Providência nos guie? Não entendam tendenciosamente que isso significa deitar na rede e ficar de papo pro ar, nananina!, de maneira alguma, é exatamente o contrário: trabalhar, servir, amar, cuidar da família, dos outros e de si mesmo, mas sempre com uma visão sobrenatural, que é a que nos salva realmente, desde o começo até o fim.

Acredito que "tudo contribui para o bem dos que amam a Deus", e procuram estar atentos às Suas inspirações. Neste ano que virá, de minha parte só penso em fazer o que Ele espera de mim, e já é muito, porque Ele espera o melhor dos Seus filhos, como esperamos dos nossos. O que vou conseguir vai ser uma equação feliz - assim espero - da minha correspondência (por maior que seja só vai representar talvez 5% do total) e das graças que Sua misericórdia sem fim vai me proporcionar.

S.Paulo já disse, com toda a sua peculiar sabedoria e firmeza, que "quando sou fraco, aí é que sou forte", para que a Ssma.Trindade manifeste Seu poder. A minha contribuição é ter fé, esperança e caridade, e assim mesmo só será possível se eu Lhe pedir, pois sendo virtudes teologais, só advirão diretamente dele. O que, de novo, não significa inoperância.

Vamos fazer os outros felizes, sermos felizes e esperançosos, acolhermos com benignidade e alegria os que amamos, os que podemos amar melhor, e aqueles que necessitam do nosso amor, mas que precisam aprender a retribuir. Comemorar o Ano-Novo é abrir-se às expectativas de Deus para nós, e confiar cada vez mais na Sua bondade, desde este minuto, e em todos os novos anos da nossa vida passageira, com vistas ao Ano realmente novo e derradeiro, quando passaremos à eternidade junto a Ele, e nossa felicidade não terá fim. 

Felizes sejam todos os recomeços que o Senhor permitir a vocês, leitores e leitoras do blog, é o desejo que nós expressamos com carinho neste momento. Feliz Ano-novo!

Sunday, December 30, 2012

Aprofundar a fé: CREDO (1)

Por Maria Teresa Serman
Já comentamos no blog sobre o Ano da Fé, instituído pelo Santo Padre, e que já começou em outubro. Para aprofundarmos a nossa fé, resolvemos meditar, em "cápsulas de fé", no CREDO DO POVO DE DEUS, que é rezado na Santa Missa. Vamos começar, então:

Creio (ou cremos) em Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da Terra: como no Pai-nosso, essa oração de confissão de fé começa por confirmar a nós, crentes, especialmente aos batizados, que Deus é e deseja ser, em primeiro lugar, nosso Pai, amoroso, presente, que nos assiste e confere as graças necessárias para nossa vida e santidade. Não é uma entidade distante, que nos criou, mas se conserva distante, em todo o seu poder sem medida, nos céus. Não nos abandonou, Seu Amor nos deu a vida, e a conserva, sustentando-nos em nossas provações, trabalhos e obras de amor. Ele espera que recorramos à Sua Misericórdia todo o tempo, e que busquemos, antes e acima de tudo, amá-lo e demonstrar esse amor também aos irmãos. 

S.João resume essa verdade com perfeição, ele que conheceu pessoalmente o amor de Jesus, o Filho de Deus encarnado, em sua carta, 1João 4,7-8: "Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor."

Convém aqui darmos uma parada e nos perguntarmos: amo verdadeiramente, com o amor que Deus nos indicou, por meio dos ensinamentos de Cristo, nos evangelhos, no depósito de fé da Santa Igreja, ou finjo que procedo assim, mas a minha boca e minhas atitudes falam da abundância de meu coração, repleto de mim mesmo? E, no fim, amo a mim próprio refletido nos outros. 

Deus é Todo-Poderoso, Criador e Regente do universo, de cada criatura, e cuida da sua criação com uma atenção que não podemos sequer imaginar, embora devamos crer, pois é assim que nos salvaremos. 

Devemos pedir a fé de Abrãao, que saiu em rumo à terra que lhe foi prometida e esperou o filho que já não poderia gerar, por sua idade e de sua mulher, e tudo lhe foi confirmado com imensa generosidade, pois Deus não esquece Suas promessas. Antes se excede em bondade, dando-nos mais e melhor do que aquilo que pedimos.

Devemos crer como Santa Maria, que prontamente proferiu o "Fiat", "Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.", ao Arcanjo Gabriel.  E, a partir desse momento, dedicou sua vida a servir, em primeiro lugar sua prima Isabel, e viveu de fé e serviço até sua assunção aos céus. Deus não lhe poupou contrariedades, nem "uma espada que transpassará a tua alma", a morte dolorosíssima de Seu Filho. Nada abalou sua fé, e ela foi vitoriosa. De pé, junto à Cruz; gloriosa no céu, junto à Ssma. Trindade.  

Monday, December 24, 2012

Feliz Natal com S. José

Por Maria Teresa Serman
"Deus previra que o seu Filho nascesse numa família como as outras, pois a vida de Jesus tinha que ser igual à dos demais homens: devia assim nascer indefeso e, portanto, necessitado de um pai que o protegesse e que lhe ensinasse o que todo o pai ensina aos seus filhos
.
Foi no cumprimento dessa missão de protetor de Maria e de pai de Jesus que esteve toda a essência e o sentido último da vida de José. Veio ao mundo para fazer as vezes de pai de Jesus e de esposo castíssimo de Maria, da mesma forma que cada homem vem ao mundo com uma missão peculiar, confiada por Deus, que fundamenta todo o sentido da sua vida. Quando o Anjo lhe revelou o mistério da concepção virginal de Jesus, José aceitou plenamente a sua missão, e a ela permaneceria fiel até à morte. Toda a sua glória e toda a sua felicidade consistiram em ter sabido entender o que Deus queria dele e em tê-lo realizado fielmente até o fim.

Hoje, na nossa oração, contemplamo-lo junto à Virgem Maria, que está prestes a dar à luz o seu Filho Unigênito. E fazemos o propósito de viver este Natal ao lado de José: um lugar tão discreto e ao mesmo tempo tão privilegiado. “Que bom é José! Trata-me como um pai a seu filho. Até me perdoa se tomo o Menino em meus braços e fico, horas e horas, dizendo-lhe coisas doces e ardentes!...”(s. Josémaria Escrivá)
 “A SÃO JOSÉ – diz Santo Agostinho num sermão – não só se deve o nome de pai, como se deve mais a ele do que a qualquer outro”7. E acrescenta a seguir: “Como era pai? Tanto mais profundamente pai quanto mais casta foi a sua paternidade. Alguns pensavam que era pai de Nosso Senhor Jesus Cristo tal como são pais os outros, os que geram segundo a carne [...]. Por isso diz São Lucas: Pensava-se que era pai de Jesus. Por que diz apenas que se pensava? Porque o pensamento e o juízo humanos se referem àquilo que costuma acontecer entre os homens. E o Senhor não nasceu do germe de José. Mas à piedade e à caridade de José nasceu um filho da Virgem Maria, que era Filho de Deus”(Stº Agostinho).

Foi muito grande o amor de José por Maria. “Devia amá-la muito e com grande generosidade quando, sabendo do seu desejo de manter a consagração que havia feito a Deus, aceitou desposá-la, preferindo renunciar a ter descendência a viver separado daquela a quem tanto amava."(Frederico Suárez)  O seu amor foi limpo, delicado, profundo, sem mistura de egoísmo, respeitoso. E o próprio Deus selou definitivamente a sua união com Maria (já estavam unidos pelos esponsais e, por isso, o anjo lhe dissera: Não temas receber Maria, tua esposa) mediante um novo vínculo ainda mais forte, que era o comum destino na terra de cuidarem juntos do Messias.

Como seria o relacionamento de José com Jesus? “José amou Jesus como um pai ama o seu filho, dando-lhe tudo o que tinha de melhor. Cuidou daquele Menino como lhe tinha sido ordenado, e fez dele um artesão: transmitiu-lhe o seu ofício. Por isso os vizinhos de Nazaré se referiam a Jesus indistintamente como faber e fabri filius (Mc 6, 8; Mt 13, 55), artesão e filho do artesão. Jesus trabalhou na oficina de José e junto de José. Como seria José, como teria atuado nele a graça, para ser capaz de desempenhar a tarefa de educar o Filho de Deus nos aspectos humanos?

“Porque Jesus devia parecer-se com José: no modo de trabalhar, nos traços do seu caráter, na maneira de falar. No realismo de Jesus, no seu espírito de observação, no seu modo de sentar-se à mesa e de partir o pão, no seu gosto por expor a doutrina de maneira concreta, tomando como exemplo as coisas da vida corrente, reflete-se o que foi a infância e a juventude de Jesus e, portanto, o seu convívio com José." (S. Josémaria Escrivá)

Unidos a José, é fácil abeirarmo-nos do Natal. Ele só nos pede simplicidade e humildade para podermos contemplar Maria e seu Filho. Os soberbos não têm lugar na pequena gruta de Belém."

 Este trecho é de uma meditação de Falar com Deus, de Carvajal. Enaltece, com muita propriedade e carinho, ao Santo Patriarca, esposo da Mãe de Deus. S. Josémaria chamava-o "nosso pai e senhor", e ele assim é. Embora o presépio o apresente junto ao Menino e Sua Mãe, são poucos os que se lembram de honrá-lo e cumprimentá-lo pela sua correspondência total à inigualável responsabilidade que o Senhor lhe confiou, entregando a seus cuidados Seus maiores tesouros. E como o escolheu, o cumulou de graças, como faz com cada um de nós para a missão que nos destinou na vida. Homenagear o esposo de Maria alegra muitíssimo a ela e ao Filho. Um natal com S. José é completo!

Saturday, December 22, 2012

Maturidade real

A maturidade nem sempre vem com a idade e, até mesmo nós, adultos, podemos não ter alcançado ainda esse patamar na vida.

 Lembro-me bem do momento em que senti o peso da idade e  a responsabilidade da vida e de meus atos. Foi quando meu primeiro filho, aos 18 anos, saiu de casa para começar um novo passo na sua vida longe de nós, era um novo parto para mim, pelo qual eu nascia para a idade adulta e assumia a maturidade, nos meus 38 anos. Até então, acho, tinha a inocência e a despreocupação típica dos jovens.

 Cada um tem o seu parto de maturidade, isto é, um  momento onde somos amadurecidos à força. E só sentimos isso quando a responsabilidade dos nossos atos assume a real dimensão que tem.
 Muitas pessoas agem como crianças por toda a vida, sem assumirem suas verdadeiras idades, são adultos ridículos, incapazes de sair  do conforto da infância, colocando-se sempre numa posição imatura diante da vida e das decisões a tomar. Essas pessoas costumam ter como princípio não assumir compromissos, e, quando assumem, não os levam a sério.

 Já viram aquele adulto acriançado? Não me refiro àqueles que vivem brincando e alegres, e sim aqueles que só fazem a sua vontade, que são incapazes de um ato de generosidade e de se sacrificar pelos outros, egoísmo esse típico dos imaturos. Falo do adulto que “bate o pé” como uma criança querendo seu doce preferido, não importando se sobrará para o irmão menor ou para o pai que vem cansado do trabalho a noite. 

 A idade adulta nos dá um certo ar de reflexão, uma atitude mais ponderada e nos ajuda a formarmos melhor a nossa própria família, assumindo tudo o que vem com ela: as dificuldades, as alegrias, os filhos, o marido, a mulher, as diferenças de cada um e nos ajuda a viver em harmonia com tudo o que nos cerca.

 A maturidade pode vir com o tempo, mas também podemos ensinar aos nossos filhos, através de exercícios de responsabilidade dados a eles. Quando exigimos a nota no colégio, quando damos um dinheiro nas mãos dos pequeninos e os orientamos como devem usá-lo, tudo isso mostrará o peso da responsabilidade e veremos o amadurecimento de cada um no uso dos seus direitos.

Tuesday, December 18, 2012

Falta de amor com amor se paga

Este é um comentário do Beato Charles de Foucauld (1858-1916), eremita e missionário no Saara, ao evangelho do perdão, àquele em que Jesus nos recomenda perdoar sete vezes ao dia, e que vai completar-se em outro trecho, quando o Mestre multiplica o perdão por setenta vezes sete. O número sete, na exegese bíblica, denota infinito, não uma quantidade específica. Então, a mensagem é que devemos estar sempre dispostos a perdoar. São Josémaria Escrivá dizia que não precisava perdoar, porque Deus lhe tinha ensinado a amar.
 
O autor nos dá uma esplêndida definição de amor já na primeira linha. Amor não depende de sentimentos, muito subjetivos e variáveis para neles confiarmos plenamente. O verdadeiro amor é construído pela vontade. Isso não quer dizer que não tenha falhas, contradições e desenganos, mas que se mantém firme, apesar disso tudo.

É verdade que o céu não é aqui em baixo. Porém, na oração do Senhor, pedimos que "venha a nós o Vosso Reino". O reino de Deus começa conosco, e o céu pode ser vislumbrado quando damos oportunidade para que o Senhor nos fale na oração, no trabalho cotidiano, no amor que transformamos em obras, muitas vezes pequenas e cotidianas, para Ele são importantes e agradáveis. Para isso, contudo, temos que calar a nossa alma e deixá-lO falar com voz de Pai, Mestre, Consolador.



«Perdoa-lhe»

O amor não consiste em sentirmos que amamos, mas em querermos amar. Quando queremos amar, amamos; quando queremos amar acima de tudo, amamos acima de tudo. Se acontecer sucumbirmos a uma tentação, é porque o amor é demasiado fraco, não é porque ele não exista. É preciso chorar, como São Pedro, arrependermo-nos como São Pedro [...] mas, também como ele, dizer três vezes: «Amo-Vos, amo-Vos, amo-Vos, Vós sabeis que, apesar das minhas fragilidades e pecados, eu Vos amo» (Jo 21,15ss).

Quanto ao amor que Jesus tem por nós, Ele provou-o à abundância para que nele acreditemos sem o sentirmos. Sentir que O amamos e que Ele nos ama seria o céu; mas o céu, salvo em raros momentos e excepções, não é aqui em baixo.

Lembremos sempre uns aos outros esta história dupla: a das graças que Deus nos deu pessoalmente desde o nascimento e a das nossas infidelidades ; e aí acharemos [...] motivos infinitos para nos perdermos, com ilimitada confiança, no Seu amor. Ele ama-nos porque é bom, não porque somos bons; não amam as mães os filhos desencaminhados? E muitas razões havemos de encontrar para nos enterrarmos na humildade e na falta de confiança em nós próprios. Procuremos resgatar um pouco os nossos pecados pelo amor ao próximo, pelo bem feito ao próximo. A caridade para com o próximo, os esforços para fazer bem aos outros  são um excelente remédio a opor às tentações: é passar da simples defesa ao contra-ataque.

Saturday, December 8, 2012

Caridade e generosidade

"Conta-se da vida de São Martinho que, certa noite, Cristo lhe apareceu em sonhos vestido com a metade da capa de oficial romano que poucas horas antes o Santo tinha dado a um pobre. Martinho olhou atentamente para o Senhor e reconheceu a capa. Ao mesmo tempo, ouviu Jesus dizer aos anjos que o acompanhavam, num tom de voz que nunca esqueceria: “Martinho, que é apenas um catecúmeno, cobriu-me com estas vestes”. Imediatamente o Santo lembrou-se de outras palavras de Jesus: Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes. A visão encheu-o de paz e de alento, e pouco tempo depois administravam-lhe o Batismo.

Não devemos fazer o bem esperando uma recompensa nesta vida. Devemos ser generosos (no apostolado, na esmola, nas obras de misericórdia...), mas sem esperar receber nada por isso. A caridade não busca nada, a caridade não é interesseira. Devemos dar, semear, dar-nos, ainda que não vejamos nem frutos, nem correspondência, nem agradecimento, nem benefício pessoal algum. O Senhor ensina-nos nesta parábola a dar liberalmente, sem calcular retribuição alguma. Um dia recebê-la-emos em abundância.

NÃO SE PERDE NADA do que levamos a cabo em benefício dos outros. Quem dá em abundância dilata e enriquece o seu coração, torna-se jovem e aumenta a capacidade de amar. O egoísmo encolhe a pessoa, limita o seu horizonte pessoal, tornando-o pobre e estreito. Quando não vemos os frutos do nosso sacrifício, nem colhemos dele agradecimento humano algum, basta-nos saber que o objeto da nossa generosidade é o próprio Cristo. Nada se perde. “Não vedes agora – comenta Santo Agostinho – a importância do bem que realizais; o lavrador, ao semear, também não tem diante dos olhos a colheita; mas confia na terra. Por que não confias tu em Deus? Chegará um dia que será o da nossa colheita. Pensa que nos encontramos agora nas fainas de semeadura; mas plantamos para colher mais tarde, conforme diz a Escritura: Vão andando e choram, espalhando as suas sementes; quando voltarem, virão com alegria, trazendo os feixes (Sl 125)”7. A caridade não desanima se não vê resultados imediatos; sabe esperar, é paciente.

A generosidade abre caminho à necessidade vital de dar. O coração que não sabe espalhar o bem entre os que o rodeiam, no ambiente em que vive, inutiliza-se, envelhece e morre. Quando damos, o nosso coração alegra-se e estamos em condições de compreender melhor o Senhor, que deu a sua vida em resgate por todos.

É MUITO o que podemos dar aos outros. Podemos dar-lhes bens materiais – ainda que seja pouco, se dispomos de pouco –, tempo, companhia, cordialidade... Trata-se de pôr ao serviço dos outros os talentos que recebemos do Senhor. “Eis uma tarefa urgente: sacudir a consciência dos que creem e dos que não creem – fazer uma leva de homens de boa vontade –, com o fim de que cooperem e proporcionem os instrumentos materiais necessários para trabalhar com as almas”.

 Extraído de Falar Com Deus, de Francisco Carvajal.

Thursday, November 22, 2012

Coração magoado fala demasiado

Em quatro palavras, um autêntico tratado sobre a origem dos desabafos, dos famosos desabafos que acarinhamos como um direito irrecusável! A facilidade sermos espetados pela mágoa é diretamente proporcional à torrente de desabafos que flui, impetuosa, do nosso coração: "Não consegui aguentar; falei, falei, falei, até cansar..." Por que? Porque é um recurso psicológico para exteriorizarmos as mágoas e ressentimentos, para nos ouvirmos e nos convencermos de que estamos com a razão.


Quando nos tornamos susceptíveis, hipersensíveis a palavras, atitudes ou gestos que pouco ou nada significam por si mesmos, passamos a fazer parte do grande exército dos ressentidos: desabafamos demais, falamos demais. Pensando bem: não é verdade que uma alta porcentagem de palavras inúteis e mesmo prejudiciais, dessas que envenenam a convivência, são expelidas tumultuosamente, sem pensar, explodindo na cara do próximo sem a menor justiça ou compreensão? O desabafo vira explosão. Essa é a triste marca do coração magoado: a verborreia que tenta defender-se, desculpar-se, contra-atacar, ou então provocar compaixão em quem nos ouve, explicando com mil pormenores (desnecessários e, tantas vezes inexistentes) aquilo que machuca.

Seria tão bom conseguir que os acontecimentos ou as pessoas nos ferissem menos! A facilidade de nos sentirmos magoados ou ofendidos está muito ligada à alta estima que temos de nós mesmos, à vaidade e ao amor-próprio. Daí que o homem ou a mulher realmente humildes tenham poucas mágoas. Consequência: falam com ponderação, sem estridências, e sempre disposto à compreensão, a essa largueza de espírito cuja carência dá toda razão ao provérbio: QUEM AO LONGE NÃO OLHA, PERTO SE FERE.

(...)DA ABUNDÂNCIA DO CORAÇÃO FALA A BOCA: é uma sentença pronunciada por Cristo( Lc 12,34) e depois repetida em todas as línguas e culturas. E é um convite à prática de um sadio exercício de conhecimento próprio, que nos tira, à força de habitualmente nos julgarmos a nós mesmos, a vontade - e até o prazer mórbido - de julgar os outros e de queixar-nos deles.É exatamente quando progredimos nesse conhecimento próprio que encontramos o ponto fraco que origina as nossas mágoas e as nossas verborreias. Descobrimos que consciente ou inconscientemente nos supervalorizamos, e por isso tendemos a sentir-nos menosprezados, desaproveitados, descartado, injustiçados, subjugados... Vamos então entregando-nos a um obsessivo vaivém de pensamentos e impressões - o famoso "remoer" - pouco perceptível no começo, mas que, como uma má sinfonia, sobe num "crescendo" dissonante e bem pouco musical, num acúmulo de recriminações, contra-ataques e autodefesas. A cabeça assemelha-se a uma panela de pressão com a tampa bem atarraxada, que solta fumaça por todos os lados (as caras feias, os mutismos aparentemente inexplicáveis), até que acaba...explodindo. Essa situação ensina algo de extremo valor: que nenhuma explosão ou desabafo acontece de repente, que são as tumultuosas impressões cozinhadas pelo orgulho ao longo do tempo as protagonistas de uma história de feridas mal cicatrizadas, de humilhações não absorvidas e até de vinganças sem nobreza.

Que fazer para dissolver as mágoas a tempo? Como primeiríssimo remédio calar a boca, treinando-se em situações menos explosivas, ante as pequenas "alfinetadas" de que está repleta a vida diária.(...)Depois confidenciar na hora certa e com a pessoa certa, serenamente, abrindo o coração com Deus,em primeiro lugar, mas também com um bom sacerdote, e, se o tivermos, com algum amigo sensato e experiente que possa aconselhar-nos com lucidez e cabeça fria. A seguir, reconsiderar as "injustiças" que nos pareça termos sofrido, buscando  com isenção de ânimo as mil e uma razões e atenuantes que explicam o comportamento do nosso "ofensor", considerando antes de mais nada se não lhe teremos dado motivos bem reais para tratar-nos assim. E veremos então as nossas mágoas fundirem-se e evaporarem como gelo ao sol.

Do livro PROVÉRBIOS E VIRTUDES, José Lino C. Nieto

Sunday, November 18, 2012

PASSARINHO QUE ANDA MUITO COM MORCEGO ACABA DORMINDO DE CABEÇA PARA BAIXO

Quando uma moça diz a um rapaz que nem sequer é seu namorado, ou o é há pouquíssimo tempo, "Quero ter um filho com você, mas sem casar, pois um papel não acrescenta nada!" na verdade demonstra que caiu nas redes do sistema contra o qual pretendia se rebelar: deixou-se enredar nas malhas do chavão mais banal, onde há de tudo menos ideias próprias, convicções ou personalidade.


"Dormir de cabeça para baixo", contrariando as inclinações mais íntimas, mais NATURAIS, e, com elas, a própria possibilidade de vir a encontrar algum tipo de realização ou felicidade, é o alto preço pago pelo descaso em forjar convicções pessoais. Prefere-se trocar as convicções por palpites superficiais, por lugares-comuns, pela última moda pseudointelectual, pelo best seller bem editado, ou pelo que dizem os atores da telenovela. A convicção custa a ser conquistada, tem que ser testada, sofrida, às vezes recuperada. Mas, sem ela, hão há personalidade.

Quem se mimetiza conforme o ambiente para decidir qual há de ser o comportamento, quem extrai os seus critérios de conduta da média das opiniões circundantes e quer "estar por dentro", etc., será presa inevitável das diversas formas de instabilidade emocional, afetiva e religiosa que ondeiam por aí. Será, como se costuma dizer, apenas mais uma Maria-vai-com-as- outras, mais uma vítima inconsciente e acrítica do gregarismo e da massificação: AVES DA MESMA PLUMAGEM FICAM JUNTAS, unidas não por uma ideal comum, mas pela falta de personalidade. Aliás, a mesma ideia se encontra já nas cartas de São Paulo, que por sua vez cita o poeta clássico Menandro: AS MÁS COMPANHIAS CORROMPEM OS COSTUMES (cfr. 1Cor 15,33.)

A imagem do morcego, incapaz de enfrentar de olhos abertos a luz penetrante do dia, exprime maravilhosamente bem o atual estado de prostração mental, adepto da semiobscuridade de um mundo indefinido, indeciso e flutuante, e penetrado de uma espécie de terror latente perante qualquer coisa que signifique compromisso. Sob as esfarrapadas desculpas de quem proclama:"Faço o que gosto em cada momento", "Comigo, nada de regras ou leis", "Não tenho certeza de nada", o imenso bando dos morcegos modernos vive, na realidade, de cabeça para baixo.

Que fazer para que o passarinho não se torne morcego? Dar-se ao trabalho de construir certezas pessoais: aprender, formar a consciência, ler, perguntar: buscar a coerência entre as ideias e a prática; e, sobretudo, não se contentar com os argumentos de botequim que levam ao desanimado cinismo de quem diz:"Hoje em dia, acabaram-se as certezas", "Nada adianta nada". Formar convicções e depois levá-las para frente é algo que custa, mas não há alegria que se lhe compare.

Do livro Provérbios e Virtudes, de José Lino C. Nieto

Friday, November 9, 2012

EmContando – 7

Na semana passada falamos sobre fábulas. Hoje trago para vocês um apólogo de Machado de Assis. Tanto a fábula como o apólogo são narrativas alegóricas de moral, geralmente dialogada, em que figuram como personagens animais ou seres inanimados. A palavra fábula vem do latim (fabula) e apólogo do grego (apólogos).


AGULHA OU LINHA, QUEM É A RAINHA?  (Um Apólogo) Recontado  por Paulo Bentancur para a Editora Projeto Ltda. Porto Alegre 1993
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
“Por que você está desse jeito, exibida, toda enrolada, fingindo que é grande coisa?”
“Me deixe em paz!”
“Ora, por quê? Digo que seu jeito é antipático, e vou dizer isso sempre que me der na cabeça.”
“Que cabeça? Você não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Por que implicar com a minha maneira de ser? Cada pessoa é diferente. Cuide de sua vida e me deixe ir adiante.”
“Que orgulhosa!”
“Sou e me garanto.”
“Não vejo razão para tanto.”
“Essa é boa! E os vestidos e enfeites de nossa  dona, quem é que os costura? Não sou   eu?”
“Você?! – ofendeu-se a agulha. – Agora não aguentei! Você não sabe que   quem os costura sou eu, e muito eu?”
“Você fura o pano, nada mais. Eu é que prendo um pedaço no outro, consigo deixar o tecido todo pregueadinho ...”
“Sim, mas e daí? Eu furo o pano, vou adiante, puxo você, que vem atrás obedecendo ao que faço e mando ...”
“Também os batedores vão na frente do imperador.”
“Você é imperador?” – perguntou a agulha, debochando.
“Não digo isso. Mas a verdade é que você não é importante: só mostra o caminho, seu trabalho é inferior. Eu é que prendo, ligo, ajunto ...”
Nesse momento a costureira chegou na casa da esposa do Ministro, onde moravam a agulha e o novelo de linha.
Não me lembro se contei que a costureira andava sempre atrás da esposa do Ministro, para que a esposa do Ministro não precisasse andar atrás dela.
Pois bem, chegou a costureira, pegou o pano, pegou a agulha, pegou a linha, enfiou a linha na agulha e começou a costurar. As duas – agulha e linha – iam andando orgulhosas, pelo pano adiante (aliás, uma seda das melhores). Entre os dedos da costureira, a agulha, ágil como uma atleta dizia:
“E aí, dona linha, ainda teima comigo? Não vê que esta distinta costureira só se importa com a mamãe aqui? É   a mim que a mãozinha dela agarra, furando embaixo e em cima.”
A linha não respondia, só ia andando. O buraco que a  agulha abria a linha enchia logo, quieta mas decidida, como quem sabe o que está fazendo e não perde tempo em escutar bobagens. A agulha, vendo que a outra não lhe dava resposta, calou também e dedicou-se ao trabalho.
Era o maior dos silêncios na salinha de costura. Se ouvia o plic, plic, plic, plic da agulha no pano e nada mais.
Já era quase de noite quando a costureira dobrou o tecido, para continuar no dia seguinte: continuou nesse e em mais outro, até que no quarto e último dia de muito esforço e, pelo jeito, alguma discussão, ficou pronto o vestido. Agora era esperar pelo baile.
Veio a noite do baile, e a esposa do Ministro vestiu-se, auxiliada pela costureira que trazia a agulha para qualquer emergência. Afinal, às vezes é necessário dar um ponto a mais.
Enquanto alisavam o vestido, puxando aqui e ali, abotoando, a linha, desafiando a agulha, perguntou:
“E agora? Quem é que vai ao baile, no corpo desta mulher, fazendo parte do vestido e da sua beleza? Quem é que vai dançar com o Ministro, enquanto você volta pra caixinha da costureira? Vamos, responda!”
Parece que  a agulha ficou bem quietinha. No entanto, um alfinete, de cabeça grande e experiência maior ainda, cochichou pra pobre agulha:
“Viu, sua boba? Você cansou de abrir caminho para ela e ela é que vai aproveitar, enquanto você volta pra caixinha de costura. Faz como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam eu fico.”
Contei esta história a um amigo que, com muita tristeza, me disse:
“Eu também tenho servido de agulha a muita linha sem valor.”    
Obs.: Acho que esta história se presta a uma larga discussão. Quem afinal tinha razão, a agulha, a linha, o alfinete, o narrador ou o amigo do narrador? Uma coisa é certa: cada pessoa pensa diferente. Eu, por mim, prefiro pensar em trabalho de equipe.
                                                                                    Agnes G. Milley