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Tuesday, January 1, 2013

Saudades da infância

Num tempo onde as pessoas precisavam saber aproveitar tudo o que tinham em casa de alimentos, (aquele pessoal que viveu a carestia da guerra), minha avó era mestre em fazer bolinhos de toda sobra de refeição.

Seus bolinhos eram uma delicia, ainda lembro-me do sabor. Eram bem sequinhos e tinham sempre gosto de novidade.

Era simples: bastava ter uma sobra de arroz, ou vagem, ou carne moída, que lá vinha ela com sua refeição "customizada",com cara de prato novo.

Ela misturava o arroz com uns ovos, um pouquinho de queijo ralado, uma salsa picadinha e algum outro tempero que tivesse em casa no momento (assim nunca tinham o mesmo sabor) e ligava tudo, bem misturado, fritava em óleo quente, ou seria banha? (Não tenho certeza, acho que já nasci na era do óleo de soja). Depois ela secava bem os bolinhos, nos papeis feitos com os sacos de pão, claro que usava o lado de dentro!

Essa guloseima era servida com um frango ensopado, que só de contar já me da água na boca! As delicias da vovó eram coisas simples, mas deixaram doces lembranças.

 Adorava passar uns dias na casa dela, sendo tratada com o carinho dela, dentro de toda simplicidade.
Saudades também dos jogos com meu avô, jogávamos damas ou bisca. Como ele estava convalescendo de uma doença, eu fingia que perdia, só pra vê-lo contente.

As crianças da minha geração eram felizes, tinham a família bem unida e uns se preocupavam com o bem estar dos outros.

Boas lembranças.

Monday, September 17, 2012

O mistério do matrimônio


Por Maria Teresa Serman
"Assim devem também os maridos amar as suas mulheres, como o seu próprio corpo. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo.
De fato, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo; pelo contrário, alimenta-o e cuida dele(...). Por isso, o homem deixará o pai e a mãe, unir-se-á à sua mulher e serão os dois uma só carne." 

Este trecho de uma leitura de S. Paulo nos faz retomar o tema que já comentamos bastante aqui, mas penso que nunca esgotaremos. Sempre é bom reforçar a certeza de que o matrimônio, como o concebe a Igreja Católica, é um sacramento, "sacramentum magnum", indica o próprio apóstolo, um grande sacramento e um mistério, interroga-se ele também, meio desconcertado, não sei se casou, não temos registro, provavelmente não, o que talvez lhe tenha proporcionado o papel de observador, e que observador deve ter sido, no melhor e mais profundo sentido.

Andamos cuidando muito do corpo, mas não como deve ser, como depósito da alma, criado à imagem e semelhança de Deus. Cultuamo-lo como algo precioso, uma estátua de carrara, um bem maior, mas para exibir. Esquecemos de seu aspecto transitório e precário, por mais atividades profiláticas e alimentação orgânica e sem radicais livres com que o cuidemos. Tudo isto é bom (os cuidados profiláticos, não o culto), só não se pode inverter as prioridades, pois dar ao corpo tudo que ele pede é traiçoeiro, porque ele não para de exigir o que quer. E não somos seus servos.

Se os cônjuges se amassem como os cultuadores de corpos amam os seus próprios, "que maravilha seria viver", como diz a canção. Não haveria descuidos, e, se houvesse, logo seriam corrigidos. Cuidados carinhosos e delicados seriam constantes, como respirar; afinal, respirar é o primeiro ato responsável pela manutenção do corpo, todos praticaríamos exercícios respiratórios preconizados por mestres orientais no assunto - já que é sabido que eles são muito mais hábeis do que nós, ocidentais, nesse campo. Iríamos, também, mais assiduamente ao médico, faríamos mais exames, cuidaríamos mais dos nossos hábitos.

POR QUE, ENTÃO, JÁ NÃO SEGUIMOS ESSAS PRÁTICAS NO NOSSO CASAMENTO???  Por que não cuidamos melhor um do outro? Por que não paramos para perceber, senão ouvir, os sintomas de alguma doença? Por que não exercitamos a prática de exercícios amorosos de carinho e atenção? Por que não oxigenamos o relacionamento com atividades prazerosas e divertidas, simples, ao alcance de todos os bolsos? E, principalmente, por que não levamos o casamento ao "médico" - que pode ser um terapeuta competente, um padre, um especialista em vida matrimonial - quando a doença COMEÇA a dar seus sinais? Por que não vemos o nosso amor como nós próprios?

É bonito falar, eu sei, difícil é fazer. Mas sempre há tempo, se há amor, e sempre se pode colocar amor onde parece, às vezes, que não há. Desculpem se parece confuso; porém, pode ser simples, e também emergencial, o que sempre é, em se tratando desse "mistério". 

Wednesday, June 2, 2010

Pirraças inevitáveis

Por Maria Teresa Serman

Acontece com as crianças a metamorfose inversa dos contos de fadas. Nestes, os sapos se transformam em príncipes; nossos adoráveis anjinhos, não mais que de repente, como diria o poeta, se transformam em ogros (perto deles o Shrek é o Brad Pit): espumam, se contorcem no chão, soltam gritos horrendos, ficam arroxeados. O que é isso? Ataque epilético, gripe suína, surto psicótico???? Não, uma genuína PIRRAÇA. . Um show de deixar a menina do filme O exorcista no chinelo. Todas as mães já passaram por esse momento terrível, em maior ou menor proporção. Grava-se para sempre na (nossa) memória a vergonha e o conflito que a situação nos provoca.

Seja qual for a reação materna, ela nunca contenta a platéia. Se perdemos a cabeça, berramos e ameaçamos, todos condenam a falta de controle da pobre infeliz psicologicamente despreparada para lidar com uma criança tão indefesa. Indefesa??!! Pois sim. Se tentamos falar docemente com o diabinho, acalmando-o com meiga entonação e doces palavras, o público, penalizado, sacode a cabeça, constatando a fraqueza daquela criatura - a mãe - diante de um serzinho tão facilmente domesticável.

Nessa hora chovem conselhos e cochichos. É a hora do desamparo, da sensação de fracasso e, principalmente, de uma pungente vontade de SUMIR. Calma, muita calma nessa hora. Em primeiro lugar, desconheça as caras e carões que a cercam e, se possível, saia dali, arrastando educadamente - eu disse EDUCADAMENTE - o ogrinho, quer dizer, seu filho. Fale com ele ou ela bem baixo, sem alterar o tom ( Acredite, você consegue, Deus existe e gosta das mães! ), dizendo-lhe que ele não conseguirá nada com esse comportamento e que, quando chegar em casa, ficará de castigo na cadeirinha da Supernanny, pensando no que fez. E o mais importante: não se deixe vencer pelo berreiro e dê à criança o que ela quer. Você se tornará presa fácil daí em diante.

Falar é fácil, eu sei, e como sei! Um das minhas amadas filhas era doutora em pirraças colossais, merecedoras de um anfiteatro grego de assistência. NADA a fazia parar até a completa exaustão. Lógico que a minha vinha muito antes da dela. Um dia tive uma revelação, diria eu uma iluminação. Levei-a com roupa e tudo para debaixo do chuveiro frio, o que a fez parar instantaneamente de berrar e, pasmem! , começar a rir. Isso se repetiu outras vezes, cada vez com menos frequência, até não acontecer mais.

Não estou recomendando que afoguem seus filhos, entendam bem. Só quero deixar claro que pirraça é um teste por que todas as mães vão passar. É uma fase que pode se estender desde o bebê ( quando tomam choro é pirraça ) entrando pela adolescência. E não tem adulto mal educado que ainda faz pirraça? Deve-se lidar com ela de acordo com cada criança, mas, de maneira geral, esta é uma boa receita.

Adoraríamos se outras mães escrevessem seus lances especiais com os filhos, compartilhando assim suas experiências. Aguardamos seus comentários para que todas possamos aprender umas com as outras.

Wednesday, March 24, 2010

Um filho ÚNICO, um filho SÓ.

Texto de: Maria Teresa Serman

Não sei se entenderam o trocadilho do título, que é a idéia central do texto de hoje. Quem lhes fala é uma filha única, que não continua só porque compensou no número de filhos, cinco, e ainda queria mais. E não me arrependi em nenhum milésimo de segundo dessa compensação.

Freud ficaria feliz com minha confissão. Quis compensar mesmo, não só por considerar filhos bençãos de Deus em forma de gente, mas porque sempre me faltaram barulho e companhia. Meus pais não optaram por um só, a natureza decidiu assim.

A idéia me voltou ontem, recorrente, em um restaurante, ao olhar em volta. Vi o que tenho observado com frequência: mesas com um casal e uma criaturinha que os dois adultos se dedicam a distrair. Por mais boa vontade que tenham, criança gosta (e precisa de) criança. Se houvesse outros para se distrairem juntos, os pais poderiam prestar mais atenção mútua - tá bom, sei que é complicado, com os "pestinhas" em volta, mas há que ter criatividade, pessoal!

É falso o argumento de que criar filho hoje em dia é mais difícil . Fala sério, há uma infinidade de recursos facilitadores e lúdicos. Pode ser mais caro; porém, tal receita inflou-se pelas atividades que "injetaram" nas crianças: mil atividades culturais e esportivas; acesso irrestrito a jogos eletrônicos e atualidades tecnológicas; roupas em demasia; enfim, mimos que enfraquecem a vontade e prejudicam o caráter.

Atualidade e tecnologia sim, brincadeiras simples e inesquecíveis, sim, sim, sim!!! Não se trata de voltar `a Era Jurássica, somente resgatar o que é comprovadamente eficiente há gerações.
O filho único é solitário, por mais amiguinhos que tenha. Torna-se, inevitavelmente, superprotegido, pois podem os pais ter outra preocupação? Acostuma-se a ser o centro do mundo familiar e não reparte com facilidade o que tem, naturalmente.

Já sei que serei linchada on line, rotulada de retrógrada, xingada de delirante. Não me importo, pois deleguei a mim mesma uma missão, uma cruzada, sob o título "Dêem ao filho único o que ele realmente quer - irmãos." Para aprender a compartilhar, para brincar, e até para brigar ( para isso pedia um à minha mãe, pois achava lindo irmãos se ensopapando).

É injusto não conhecer os outros filhos dos seus pais. É pobre não dilatar o coração e acolher mais gente pequena nele( a grande também, lógico!) Cada filho, tenham certeza, traz o seu pãozinho, e muito, muito mais, debaixo do braço. E obrigada aos meus filhos por serem um pouco meus irmãos.

Saturday, November 21, 2009

A primeira infância

Texto de: Alfonso Aguiló
Engenheiro Civil. Desde 1991 é vice-presidente do Instituto Europeu de Estudos de Educação. Publicou mais de duzentos artigos em revistas e periódicos e oito livros sobre temas de educação, apologética e antropologia. Atualmente é diretor do Colégio Tajamar, em Madrid

Eu – comentava Silvia, uma dessas mães que sabem reconhecer seus erros e aprender deles – dei ao meu primeiro filho tudo o que ele desejava”. "Ao mínimo choro, eu acudia correndo.

Agora, aos quatro anos, é um pequeno tirano, e creio que isso se co
nverteu em parte de seu caráter, e me está custando mudá-lo, é terrível. É desses meninos que estalam os dedos e todo o mundo tem que lhe prestar atenção”.

"Com minha outra filha, que já tem quase dois anos, aprendi a lição, e já não me precipitava a seu lado, como com o maior. Pretendi fazer compreender desde o princípio que não pode manejar-nos com seu capricho. Quero que aprenda a pensar mais nos demais, que veja, por exemplo, que não devo ir recolhendo como uma tonta tudo o que ela atira. Quero que aprenda a ser paciente, a desenvolver um mínimo de ordem, de autocontrole. E estou bastante satisfeita da diferença de resultados”.


Desde o começo

Às vezes pode parecer que as crianças de poucos meses são seres de pouca consciência. No entanto, se lhes observa atentamente, como soube fazer aquela mãe, rapidamente se comprova que desde os primeiros meses a criança desenvolve sua capacidade de dominar a tensão que o acontecer ordinário da vida produz. O bebê tem de controlar os movimentos espontâneos para construir seu comportamento voluntário. E a educação que receba (porque a essas idades pode e deve haver já uma educação) ajudará ou estorvará extraordinariamente nessa importante tarefa.
Se forem satisfeitos sempre todos seus caprichos, ele será impedido de desenvolver sua capacidade de resistir ao impulso e tolerar a frustração, e seu caráter será egocêntrico e arrogante.

Porque observa tudo

— Tampouco se trata de negar-lhe quase tudo para que desenvolva mais essas capacidades, suponho.
Não, porque isso fomentaria a decepção crônica, um sentimento de permanente insatisfação e um caráter desconfiado, cético ou mal-humorado.

O olhar da criança é muito mais minucioso e vivo do que se pensa. Vai configurando impressões diversas sobre como funciona o mundo. Estabelece um diálogo minucioso e contínuo com as pessoas que o rodeiam. Um diálogo que não é só de palavras, senão também de imitações, de buscas, de aprovação, e de assimilação de gestos que observa. E nessa substanciosa interação, vai se configurando sua memória afetiva pessoal. Faz-se uma ideia de que, quanto e como deve sentir ante cada tipo de sucesso.

Esse contínuo gotejamento de experiências afetivas vai formando nele, de modo quase inadvertido, leis pelas quais daqui por diante interpretará como deve ser sua reação e seu estado de humor ante cada coisa. Trata-se de um lento processo que influi em sua evolução afetiva, e também no desenvolvimento de sua inteligência.

Afetos, inteligência e sentimentos

— Como podem influir os afetos no desenvolvimento da inteligência?

Pensa, por exemplo, na influência da motivação. Se for alta, há vontade por aprender coisas e desenvolver suas destrezas e capacidades, assim a inteligência irá rendendo cada vez mais. Pelo contrário, uma baixa motivação deixará infecunda uma multidão de talentos pessoais.
O desenvolvimento da inteligência está muito ligado à educação dos sentimentos.

Nesses anos vai se organizando seu sistema motivacional, pelo qual, ante algo novo, sentir-se-á incitado a explorá-lo, ou, pelo contrário, a evitá-lo. Uma correta educação há de proporcionar a segurança e o apoio afetivo necessários para esses sucessivos encontros com a linguagem, com as tradições da família, os companheiros de colégio, a natureza, a cultura, com valores de toda ordem. Segundo seja a qualidade e quantidade desses encontros, assim será o desenvolvimento de seu espírito.